{"id":12310,"date":"2026-10-29T19:08:11","date_gmt":"2026-10-29T19:08:11","guid":{"rendered":"https:\/\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/historia-de-um-ex-membro-do-instituto-da-palavra-encarnada\/"},"modified":"2026-10-29T19:09:13","modified_gmt":"2026-10-29T19:09:13","slug":"historia-de-um-ex-membro-do-instituto-da-palavra-encarnada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/pt-br\/historia-de-um-ex-membro-do-instituto-da-palavra-encarnada\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de um ex-membro do Instituto da Palavra Encarnada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Para o bem da Santa Igreja Cat\u00f3lica e das almas futuras que confiar\u00e3o suas voca\u00e7\u00f5es \u00e0 IVE<\/em><\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este relato \u00e9 apresentado anonimamente e corresponde, de boa-f\u00e9, \u00e0s experi\u00eancias que vivi, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es que testemunhei e \u00e0 forma como certos eventos foram apresentados e vividos durante minha estadia no Instituto. N\u00e3o pretendo apresentar um evento isolado ou atribuir responsabilidade individual a uma pessoa espec\u00edfica, mas registrar comportamentos e din\u00e2micas que, ao longo do tempo, chamaram minha aten\u00e7\u00e3o e que considero importantes para uma avalia\u00e7\u00e3o mais ampla da realidade da forma\u00e7\u00e3o e da vida interna do Instituto.<\/p>\n\n<!--more-->\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pe\u00e7o que minha identidade seja preservada. A escolha do anonimato responde ao medo de poss\u00edveis consequ\u00eancias pessoais e \u00e0 necessidade de proteger minha vida atual. Meu objetivo \u00e9, agindo de boa-f\u00e9, que certas experi\u00eancias possam ser conhecidas e avaliadas pelas autoridades competentes.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. Experi\u00eancia geral e contradi\u00e7\u00f5es observadas<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A santidade proposta pelo IVE realmente deslumbra e cativa qualquer alma que sinta o chamado para a vida religiosa. Fui membro de votos simples e permaneci no Instituto por aproximadamente seis anos. Durante esse per\u00edodo, por\u00e9m, v\u00e1rios aspectos fizeram com que a Congrega\u00e7\u00e3o gradualmente perdesse para mim o brilho que inicialmente despertou. Entre esses aspectos estavam os comportamentos dos superiores e situa\u00e7\u00f5es que presenciei diretamente e que, em certos momentos, pareciam contradizer os bons modos e comportamentos exigidos dos pr\u00f3prios membros. O padre, como pastor, deve cuidar de todas as almas que lhe s\u00e3o confiadas, e n\u00e3o apenas daquelas de sua prefer\u00eancia. A proximidade pessoal, afinidade ou car\u00e1ter excepcional de um dado membro n\u00e3o devem ser crit\u00e9rios para determinar quem merece mais aten\u00e7\u00e3o, cuidado ou considera\u00e7\u00e3o. Essa diferen\u00e7a no tratamento foi algo que experimentei \u00e0s vezes.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. Sobrecarga, trabalho e forma\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as dificuldades vividas nesse per\u00edodo estava tamb\u00e9m o peso emocional e a responsabilidade atribu\u00eddos a seminaristas e religiosos. A dedica\u00e7\u00e3o integral \u00e0s atividades do semin\u00e1rio pode ser uma experi\u00eancia muito bonita quando vivida com equil\u00edbrio e prop\u00f3sito. No entanto, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, o n\u00famero de responsabilidades, atividades e hor\u00e1rios de trabalho produziu uma sobrecarga f\u00edsica e mental consider\u00e1vel.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algumas dessas situa\u00e7\u00f5es, os formadores transmitiram a ideia de que, nas miss\u00f5es, ter\u00edamos o dobro do trabalho, sendo necess\u00e1rias at\u00e9 atividades mais pesadas e menos tempo de descanso, para nos adaptarmos e n\u00e3o para &#8220;relaxar&#8221;. Na pr\u00e1tica, percebi que esse modelo impactava fortemente os estudos e que, especialmente nos primeiros anos, o estudo acabava recebendo menos import\u00e2ncia diante das demandas do trabalho.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No noviciado, a experi\u00eancia me parecia, em certos momentos, uma esp\u00e9cie de teste de resist\u00eancia, como se aqueles que enfrentavam as dificuldades mostrassem que tinham voca\u00e7\u00e3o a continuar. Mais tarde, no Semin\u00e1rio Maior, percebi uma din\u00e2mica semelhante entre aqueles que viviam juntos ou tinham experi\u00eancia vocacional, marcada por muito trabalho manual e muito pouco acompanhamento pessoal \u00e0 voca\u00e7\u00e3o. Dedica\u00e7\u00e3o e disciplina s\u00e3o valores importantes na forma\u00e7\u00e3o religiosa. No entanto, seminaristas e religiosos ainda s\u00e3o pessoas, com limites humanos, necessidades f\u00edsicas e emocionais, e necessidade de descanso. Quando as responsabilidades se acumulam em excesso, o que deveria contribuir para a forma\u00e7\u00e3o pode acabar produzindo exatamente o efeito oposto.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. Lidar com as limita\u00e7\u00f5es e dificuldades dos membros<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m fiquei particularmente impressionado com certos comportamentos que, na minha opini\u00e3o, n\u00e3o correspondiam ao que se espera de um formador. Quando certas caracter\u00edsticas, dificuldades ou limita\u00e7\u00f5es dos seminaristas precisavam ser abordadas por meio de orienta\u00e7\u00e3o, aconselhamento e ajuda para super\u00e1-las, presenciei situa\u00e7\u00f5es em que essas caracter\u00edsticas eram usadas como motivo para rid\u00edculo, zombaria ou desprezo. N\u00e3o se trata de afirmar que toda corre\u00e7\u00e3o \u00e9 inadequada. A forma\u00e7\u00e3o exige corre\u00e7\u00e3o, disciplina e, frequentemente, firmeza. H\u00e1, no entanto, uma diferen\u00e7a importante entre corrigir algu\u00e9m para ajud\u00e1-lo a crescer e exp\u00f4-lo ao rid\u00edculo pelo que precisa corrigir, especialmente publicamente diante dos outros membros da comunidade. Esse comportamento foi mais percept\u00edvel, na minha experi\u00eancia, durante o noviciado.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse tipo de comportamento pode ser especialmente prejudicial quando vem de algu\u00e9m que ocupa uma posi\u00e7\u00e3o de autoridade e treinamento, justamente porque existe uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e desigualdade hier\u00e1rquica. O que, vindo de um colega, poderia ser interpretado apenas como uma piada, ganha outro peso quando vem de um superior ou treinador.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelo que pude testemunhar, certas atitudes semelhantes tamb\u00e9m chegaram \u00e0s autoridades eclesi\u00e1sticas, mesmo por meio de coment\u00e1rios depreciativos ou ridiculariza\u00e7\u00e3o de suas atitudes. Isso me levou a questionar at\u00e9 que ponto certas pr\u00e1ticas se conformavam ao esp\u00edrito de obedi\u00eancia e respeito pela autoridade da Igreja que a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o busca transmitir como um dos elementos fundamentais do Instituto.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4. Falta de aceita\u00e7\u00e3o e acompanhamento em situa\u00e7\u00f5es pessoais<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto importante refere-se \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dada \u00e0s dificuldades pessoais e emocionais dos membros. Durante o per\u00edodo em que estive no Instituto, passei por momentos de grande dificuldade emocional. Como \u00e9 uma realidade de forma\u00e7\u00e3o e vida comunit\u00e1ria, era esperado que situa\u00e7\u00f5es dessa natureza fossem tratadas com a devida aten\u00e7\u00e3o e acompanhamento adequado.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, em certa ocasi\u00e3o, a forma como a situa\u00e7\u00e3o foi conduzida deixou, na minha opini\u00e3o, muito a desejar. Algumas medidas que considero necess\u00e1rias n\u00e3o foram tomadas diante do que estava sendo vivido, e o acompanhamento recebido n\u00e3o correspondeu \u00e0 seriedade que a situa\u00e7\u00e3o exigia.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que mais me marcou foi perceber que, em situa\u00e7\u00f5es semelhantes ou segundo as pessoas envolvidas, a aten\u00e7\u00e3o e a preocupa\u00e7\u00e3o demonstradas poderiam ser diferentes. Essa percep\u00e7\u00e3o, somada ao momento delicado que eu estava passando, tornou a experi\u00eancia ainda mais dif\u00edcil. N\u00e3o pretendo expor circunst\u00e2ncias particulares ou envolver outras pessoas que tamb\u00e9m fizeram parte dessa realidade. O objetivo \u00e9 registrar que houve, segundo minha percep\u00e7\u00e3o, uma falha na recep\u00e7\u00e3o e acompanhamento de uma situa\u00e7\u00e3o que exigia maior aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias desse per\u00edodo foram profundas e foram al\u00e9m do pr\u00f3prio momento, deixando sequ\u00eancias que permanecem em minha vida. Com o passar do tempo, as dificuldades pioraram e desempenharam um papel decisivo na minha decis\u00e3o de deixar o Instituto. Talvez uma aten\u00e7\u00e3o diferente, uma escuta mais atenta ou uma interven\u00e7\u00e3o adequada naquele momento pudessem ter mudado o curso dos acontecimentos e minha voca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber. Mas \u00e9 justamente porque vivi essa experi\u00eancia que considero importante notar que a forma\u00e7\u00e3o religiosa n\u00e3o pode se limitar a exig\u00eancias espirituais, disciplinares e acad\u00eamicas. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio enxergar a pessoa por tr\u00e1s do religioso.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">5. Falta de transpar\u00eancia e dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto que considero importante mencionar \u00e9 a falta de transpar\u00eancia em certas situa\u00e7\u00f5es que afetaram o pr\u00f3prio Instituto e sua rela\u00e7\u00e3o com a Santa S\u00e9.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o tempo em que estive na institui\u00e7\u00e3o, informa\u00e7\u00f5es sobre eventos importantes, a\u00e7\u00f5es tomadas pelas autoridades da Igreja ou situa\u00e7\u00f5es que afetavam diretamente a vida e o futuro do Instituto nem sempre chegavam claramente aos membros. Muitas vezes permanec\u00edamos sem entender exatamente o que estava acontecendo, quais eram as raz\u00f5es para certas decis\u00f5es ou quais eram as circunst\u00e2ncias em torno de quest\u00f5es importantes na pr\u00f3pria comunidade.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posso lembrar, como exemplos, de ocasi\u00f5es em que padres relevantes para a comunidade n\u00e3o estavam mais presentes por longos per\u00edodos sem esclarecimento suficiente aos membros. Em uma dessas situa\u00e7\u00f5es, soube do paradeiro de um padre por um leigo que me perguntou como ele estava e disse que havia deixado o sacerd\u00f3cio. Como membro do Instituto, eu n\u00e3o havia recebido informa\u00e7\u00f5es equivalentes dos superiores. Subsequentemente, percebi uma situa\u00e7\u00e3o semelhante em rela\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o superior provincial.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa din\u00e2mica de falta de transpar\u00eancia gerou inseguran\u00e7a e perplexidade. Aqueles de fora da institui\u00e7\u00e3o frequentemente pareciam estar melhor informados sobre o que acontecia internamente do que os pr\u00f3prios religiosos, enquanto n\u00f3s, que \u00e9ramos diretamente submetidos a essa realidade, muitas vezes permanec\u00edamos sem informa\u00e7\u00f5es suficientes para entender o que estava acontecendo.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">6. Sobre a interpreta\u00e7\u00e3o de dificuldades concretas como sofrimento espiritual<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia tamb\u00e9m outro aspecto que me preocupava: a forma como certas dificuldades, sofrimentos e situa\u00e7\u00f5es de grande demanda eram interpretados espiritualmente. Em v\u00e1rios momentos, dificuldades relacionadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es e problemas estruturais das casas de forma\u00e7\u00e3o na Prov\u00edncia, incluindo quest\u00f5es de alimenta\u00e7\u00e3o e outras condi\u00e7\u00f5es materiais que, na minha opini\u00e3o, superavam as dificuldades normais da vida religiosa, estavam ligadas \u00e0 chamada &#8220;noite escura&#8221; de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhe\u00e7o que existe uma tradi\u00e7\u00e3o espiritual leg\u00edtima dentro da Igreja para entender o sofrimento e a purifica\u00e7\u00e3o interior. O problema, ao meu ver, surgiu quando dificuldades e situa\u00e7\u00f5es concretas que exigiam an\u00e1lise humana, psicol\u00f3gica ou institucional passaram a ser interpretadas predominantemente como parte necess\u00e1ria de um processo de santifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algumas circunst\u00e2ncias, tamb\u00e9m se transmitia a ideia de que certos sofrimentos, sacrif\u00edcios ou penit\u00eancias corporais deveriam ser oferecidos para o bem da Congrega\u00e7\u00e3o ou do pr\u00f3prio fundador. Dessa forma, uma dificuldade que poderia ter sido levantada pela quest\u00e3o &#8220;o que est\u00e1 acontecendo e o que precisa ser corrigido?&#8221; acabou recebendo outra interpreta\u00e7\u00e3o: &#8220;deve ser suportada e oferecida&#8221;.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o considero esses eventos como casos isolados. Lembro especialmente de momentos no noviciado em que faltavam recursos b\u00e1sicos de higiene, incluindo \u00e1gua, situa\u00e7\u00f5es que, na minha experi\u00eancia, contribu\u00edam para problemas de sa\u00fade e doen\u00e7as. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre aceitar voluntariamente os sacrif\u00edcios pr\u00f3prios de uma voca\u00e7\u00e3o religiosa e transformar todo sofrimento em algo que necessariamente deve ser suportado, oferecido ou espiritualizado, sem antes questionar se h\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o concreta que precisa ser corrigida.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">7. A figura do fundador e a interpreta\u00e7\u00e3o do sofrimento<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m fiquei impressionado com a forma como a figura do fundador era apresentada dentro dessa espiritualidade. Em certas situa\u00e7\u00f5es, a refer\u00eancia ao sofrimento oferecida pelo fundador, pela Congrega\u00e7\u00e3o e pelo bem da obra parecia assumir uma dimens\u00e3o que, na minha percep\u00e7\u00e3o, ia al\u00e9m de uma simples refer\u00eancia hist\u00f3rica ou espiritual ao fundador.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o afirmo que essa fosse necessariamente a inten\u00e7\u00e3o consciente de todos os respons\u00e1veis. Refiro-me \u00e0 impress\u00e3o de que essa forma de apresentar as coisas produziu sobre aqueles que estavam em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para mim, \u00e0s vezes, parecia haver uma equival\u00eancia entre a figura do fundador e modelos de santidade como o de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, especialmente na ideia de sofrimento, julgamento, sacrif\u00edcio, pobreza e purifica\u00e7\u00e3o. Essa associa\u00e7\u00e3o me fez questionar at\u00e9 que ponto era poss\u00edvel distinguir adequadamente o que pertence \u00e0 espiritualidade leg\u00edtima da Igreja do que estava especificamente relacionado \u00e0 figura e \u00e0 hist\u00f3ria pessoal do fundador.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, diante das decis\u00f5es tomadas posteriormente pela pr\u00f3pria Santa S\u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao Padre Carlos Miguel Buela, considero ainda mais necess\u00e1rio fazer essa distin\u00e7\u00e3o. Uma coisa \u00e9 o carisma que a Igreja reconhece e o que \u00e9 leg\u00edtimo em uma voca\u00e7\u00e3o religiosa, e outra \u00e9 a conduta pessoal de seu fundador. Um n\u00e3o deve ser confundido com o outro.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez esta seja uma das reflex\u00f5es mais importantes que permanecem para aqueles de n\u00f3s que passam por essa realidade: sofrimento n\u00e3o significa necessariamente estar no caminho certo; obedi\u00eancia n\u00e3o significa deixar de discernir; e uma dificuldade n\u00e3o deixa de ser assim simplesmente porque recebeu uma interpreta\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">8. Sobre a interpreta\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica da oposi\u00e7\u00e3o como persegui\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia tamb\u00e9m uma quest\u00e3o particularmente significativa para mim: a forma como situa\u00e7\u00f5es em que havia desacordo, questionamento ou alguma interven\u00e7\u00e3o externa eram apresentadas aos membros em rela\u00e7\u00e3o ao Instituto ou \u00e0 figura de seu fundador.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando certas posi\u00e7\u00f5es ou medidas n\u00e3o correspondiam ao que nos era transmitido sobre o fundador ou sobre o modo de vida da IVE, essas situa\u00e7\u00f5es frequentemente se apresentavam sob a perspectiva da persegui\u00e7\u00e3o da Congrega\u00e7\u00e3o ou do pr\u00f3prio trabalho. Isso acontecia mesmo quando a situa\u00e7\u00e3o envolvia autoridades ou vinha da pr\u00f3pria Igreja. Em vez de apresentar essas circunst\u00e2ncias aos membros de forma objetiva, com suas raz\u00f5es e seus diferentes aspectos, muitas vezes a compreens\u00e3o transmitida era que se tratava de uma persegui\u00e7\u00e3o que precisava ser enfrentada principalmente por meio da ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro de situa\u00e7\u00f5es em que \u00e9ramos encorajados a orar pelo fim dessa situa\u00e7\u00e3o, para que Deus interviesse ou para que o que era entendido como persegui\u00e7\u00e3o chegasse ao fim. Isso foi apresentado, em algumas ocasi\u00f5es, em conex\u00e3o com a ideia de que tais persegui\u00e7\u00f5es fariam parte da hist\u00f3ria e da inten\u00e7\u00e3o atribu\u00eddas ao fundador desde a funda\u00e7\u00e3o da IVE.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro, sempre fez parte da vida religiosa, e n\u00e3o vejo problema em recorrer a ela diante da dificuldade. O que eu tinha d\u00favidas era quando a ora\u00e7\u00e3o parecia substituir a necessidade de entender objetivamente o que estava acontecendo, especialmente quando se tratava de decis\u00f5es ou declara\u00e7\u00f5es vindas das pr\u00f3prias autoridades da Igreja. Essa forma de lidar com tens\u00f5es externas criou um mecanismo pelo qual era dif\u00edcil questionar ou analisar criticamente o que estava acontecendo. Um esquema de interpreta\u00e7\u00e3o foi transmitido que tendia a preenquadrar qualquer cr\u00edtica ou medida corretiva como hostilidade ou mal-entendido, dificultando a interpreta\u00e7\u00e3o de eventos que contradiziam a narrativa interna apresentada aos membros.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gradualmente, isso criou uma esp\u00e9cie de divis\u00e3o entre o que era apresentado internamente como verdade sobre o Instituto e o que vinha de fora. Quando havia alguma contradi\u00e7\u00e3o entre essas duas perspectivas, a tend\u00eancia que percebia era interpretar a posi\u00e7\u00e3o externa como oposi\u00e7\u00e3o, persegui\u00e7\u00e3o ou mal-entendido da obra.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os que estavam dentro, isso dificultava formar seu pr\u00f3prio julgamento sobre os eventos. Afinal, se uma posi\u00e7\u00e3o contra o Instituto j\u00e1 era apresentada como resultado de persegui\u00e7\u00e3o, havia pouco espa\u00e7o para simplesmente perguntar o que havia acontecido, quais foram os motivos daquela decis\u00e3o e se eventualmente haveria uma cr\u00edtica leg\u00edtima a ser considerada.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso tamb\u00e9m contribuiu para o fato de que certas quest\u00f5es eram recebidas mais como uma batalha espiritual a ser vencida com ora\u00e7\u00e3o do que como eventos concretos que pudessem e deveriam ser analisados com serenidade, transpar\u00eancia e um esp\u00edrito de obedi\u00eancia \u00e0 pr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ponto que considero importante registrar, portanto, n\u00e3o \u00e9 simplesmente que houve diverg\u00eancias, mas que percebi uma din\u00e2mica recorrente pela qual o que veio de fora e contradizia a compreens\u00e3o interna do Instituto tendia a ser enquadrado previamente como oposi\u00e7\u00e3o ou persegui\u00e7\u00e3o. Essa din\u00e2mica merece, na minha opini\u00e3o, ser examinada de forma institucional.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">9. Deixar o Instituto e aus\u00eancia de acompanhamento subsequente<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em conclus\u00e3o, deixei o Instituto por vontade pr\u00f3pria. A decis\u00e3o foi minha, mesmo depois que os formadores afirmaram e reafirmaram que eu tinha uma voca\u00e7\u00e3o religiosa. Quando tomei a decis\u00e3o de sair, n\u00e3o houve oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 minha sa\u00edda.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, sa\u00ed como religioso e permaneci por alguns meses fora do semin\u00e1rio, mesmo com votos, sem receber acompanhamento e orienta\u00e7\u00e3o suficientes sobre como viver aquele per\u00edodo e sobre o processo de reintegra\u00e7\u00e3o \u00e0 vida fora do Instituto. Sei que experi\u00eancias semelhantes ocorreram com outras pessoas que tamb\u00e9m deixaram essa realidade.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As consequ\u00eancias dessa experi\u00eancia foram al\u00e9m do momento da partida. A dificuldade de reinser\u00e7\u00e3o na vida leiga, na Igreja e na sociedade foi significativa. O que restou n\u00e3o foi uma perda de f\u00e9 na Santa Igreja Cat\u00f3lica, mas uma profunda desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade de encontrar fidelidade e coer\u00eancia em obras que, para quem as v\u00ea de fora, podem parecer santas e perfeitas.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carrego apenas uma grande marca de sofrimento psicol\u00f3gico; Posso dizer que houve um antes e um depois do IVE. Ao contr\u00e1rio do que muitos ex-membros atestam, minha f\u00e9 foi evidentemente afetada pelo contra-testemunho do IVE a mim. Hoje tenho que lidar com todas as consequ\u00eancias do per\u00edodo infeliz que passei, e por muito tempo me culpei por pensar que eu era o culpado por ter estagnado no IVE.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m considero importante registrar a forma como aqueles que deixaram o Instituto foram classificados internamente, inclusive pelo uso do termo &#8220;falecidos&#8221;, distinguindo, de certa forma, aqueles que teriam ido &#8220;bem&#8221; daqueles que teriam ido &#8220;mal&#8221;, sem necessariamente entender as circunst\u00e2ncias individuais que levaram cada pessoa a deixar a comunidade.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assumi a responsabilidade pelo meu per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o e tentei cumprir meus deveres e outras obriga\u00e7\u00f5es assumidas. Mesmo assim, quando deixei o Instituto, n\u00e3o recebi a orienta\u00e7\u00e3o e o apoio que esperava, dado o ensino sobre a responsabilidade de formar e acompanhar aqueles que entram na vida religiosa.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">10. Considera\u00e7\u00e3o final<\/h2>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o apresento este relato como uma tentativa de condenar indiscriminadamente todas as pessoas que fazem ou fizeram parte da IVE, nem como uma afirma\u00e7\u00e3o de que todas as experi\u00eancias foram iguais. Tamb\u00e9m n\u00e3o pretendo questionar a f\u00e9 cat\u00f3lica, a vida religiosa ou o que legitimamente pertence \u00e0 espiritualidade da Igreja.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que desejo registrar s\u00e3o padr\u00f5es de comportamento e din\u00e2micas institucionais que experimentei ou presenciei e que considero importantes o suficiente para serem conhecidos, examinados e, se necess\u00e1rio, corrigidos pelas autoridades competentes.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espero que este relato n\u00e3o seja novamente deixado de lado. Que contribua para que futuras voca\u00e7\u00f5es sejam recebidas com verdadeiro cuidado, que os membros sejam tratados com dignidade, que dificuldades concretas sejam avaliadas com transpar\u00eancia e que nenhuma autoridade ou figura hist\u00f3rica seja colocada acima da possibilidade de discernimento, corre\u00e7\u00e3o e verdade.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que nenhuma outra pessoa precise suportar consequ\u00eancias semelhantes sozinha e que aqueles que entram em uma voca\u00e7\u00e3o religiosa sejam acompanhados de tal forma que, bem-vindos e respeitados, tenham condi\u00e7\u00f5es para dar os frutos que Deus destinou para cada um.<\/p>\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim seja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para o bem da Santa Igreja Cat\u00f3lica e das almas futuras que confiar\u00e3o suas voca\u00e7\u00f5es \u00e0 IVE Este relato \u00e9 apresentado anonimamente e corresponde, de boa-f\u00e9, \u00e0s experi\u00eancias que vivi, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es que testemunhei e \u00e0 forma como certos eventos foram apresentados e vividos durante minha estadia no Instituto. 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