{"id":2326,"date":"2023-11-20T13:01:42","date_gmt":"2023-11-20T13:01:42","guid":{"rendered":"https:\/\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/o-que-aconteceu-realmente-no-convento\/"},"modified":"2024-03-29T21:18:25","modified_gmt":"2024-03-29T21:18:25","slug":"o-que-aconteceu-realmente-no-convento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/pt-br\/o-que-aconteceu-realmente-no-convento\/","title":{"rendered":"O que realmente aconteceu no convento"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Publicamos aqui uma tradu\u00e7\u00e3o do artigo publicado por Kelly Sue Fitz (ex-Madre Lumen) em seu <a href=\"https:\/\/kellysuefitz.com\/what-really-happened-in-the-convent\/\">blog<\/a>, originalmente em ingl\u00eas. Obrigado, Kelly Sue, por permitir-nos public\u00e1-lo aqui.<\/em><\/p>\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, estive imersa no <em>&#8220;trabalho de sombra&#8221;<\/em> e percebi que, mesmo quando voc\u00ea acha que j\u00e1 superou tudo, sempre h\u00e1 algo mais a ser superado. E esse algo para mim foi o tempo em que passei no convento.<\/p>\n\n<p>At\u00e9 o momento, acho que nunca dei voz suficiente \u00e0 verdadeira injusti\u00e7a e ao quadro completo de neglig\u00eancia e disfun\u00e7\u00e3o que vivenciei e que \u00e9 vivenciado l\u00e1. <\/p>\n\n<p>E, embora eu tenha escrito blogs, feito v\u00eddeos e at\u00e9 mesmo escrito uma <a href=\"http:\/\/www.iveinfo.org\/search?q=Lumen\">carta p\u00fablica de 3 p\u00e1ginas<\/a> para a minha antiga Congrega\u00e7\u00e3o em 2015, raramente publiquei os detalhes brutos e cru\u00e9is, talvez por tentar ser um pouco respeitosa, suponho, obedecendo ao arqu\u00e9tipo de &#8220;boa menina&#8221; que ainda vive em mim.<\/p>\n\n<p>Devo dizer que muitas vezes \u00e9 dif\u00edcil responder \u00e0 pergunta: &#8220;Por que voc\u00ea deixou o convento?&#8221;, elaborar uma resposta elevada, dependendo para quem n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, ent\u00e3o geralmente conto uma vers\u00e3o abreviada e diger\u00edvel, mas uma ex-irm\u00e3, uma vez, me lembrou da import\u00e2ncia <strong><em>de n\u00e3o minimizar o acontecido, especialmente para mim mesma.<\/em><\/strong> Ent\u00e3o, aqui estou eu tentando canalizar <em>a guerreira e a bruxa<\/em> que mora dentro de mim para fazer um relato mais completo do que aconteceu. Al\u00e9m disso, percebi ao longo desses anos que, ao tentar me conter, meu testemunho n\u00e3o foi suficientemente vis\u00edvel e validado.<\/p>\n\n<p>Parte de<em> &#8220;minha sombra&#8221;<\/em> com a que eu tenho trabalhado recentemente \u00e9 o peso que carrego em torno a mim por ser considerada uma &#8220;pregui\u00e7osa&#8221;, pois n\u00e3o consigo conceber a ideia de trabalhar em tempo integral nunca mais, e n\u00e3o o fa\u00e7o desde 2019, mas ser\u00e1 que se o mundo soubesse o que eu passei em apenas alguns anos, mas de forma intensa, meu desejo de nunca mais trabalhar em tempo integral seria validado? <\/p>\n\n<p>Parte do meu <em>&#8220;trabalho de sombra&#8221;<\/em> \u00e9 justamente assumir essa<em> &#8220;sombra&#8221;<\/em> e poder sair dela, uma tentativa de deixar aquela sombra de menina pregui\u00e7osa, mas sei que isso \u00e9 apenas uma parte de mim, pois h\u00e1 outra parte que sabe que h\u00e1 um ritmo natural em cada um de n\u00f3s que tamb\u00e9m deve ser buscado, reconhecido e obedecido.<\/p>\n\n<p>A semanas de trabalho de mais de 40 horas podem ser consideradas rid\u00edculas para qualquer ser humano, se considerarmos que tamb\u00e9m devemos desfrutar de nossos entes queridos, cultivar dons, nutrir a natureza etc. e n\u00e3o estar apenas sentado horas en frente ao computador, preocupado-se em ganhar dinheiro para continuar sobrevivendo, mas, infelizmente, vivemos em 2023 e, para a maioria de n\u00f3s, \u00e9 uma constante batalha o fato de sobreviver e ter tempo para fazer coisas que amamos com as pessoas que amamos.<\/p>\n\n<p>De qualquer forma, este texto tamb\u00e9m servir\u00e1 como um chamado \u00e0s SSVM (novamente) e poder assim validar o meu eu mais jovem que, naquela \u00e9poca, precisava de algu\u00e9m que lutasse por ela, mas n\u00e3o tinha ningu\u00e9m.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"225\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/St.-Paul-Convent-2009-300x225-1.jpg?resize=300%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-1425\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Convento de ST Paul, ca. 2009<\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Esta ser\u00e1 minha melhor tentativa de fazer uma lista desses anos de &#8220;shitshow&#8221;:<\/p>\n\n<p>&#8211; Aos 26 anos, fui nomeada Madre Superiora do convento em East Harlem, Nova York, era a mais jovem daquela comunidade, tanto em idade quanto em vida religiosa, sem ainda ter feito os votos perp\u00e9tuos. Faziamos apostolado em uma gigantesca par\u00f3quia bil\u00edngue.<\/p>\n\n<p>&#8211; Depois de um ano, foi enviada \u00e0 minha comunidade uma irm\u00e3 que havia sido diagnosticada com transtorno de personalidade lim\u00edtrofe. Era argentina, tinha 30 e poucos anos, havia feito os votos perp\u00e9tuos e estava causando agita\u00e7\u00e3o nas casas de forma\u00e7\u00e3o em Washington, onde morava. Minhas superioras a enviaram para minha comunidade, dizendo: <em>&#8220;Lumen, voc\u00ea \u00e9 muito calma, temos certeza de que ser\u00e1 capaz de lidar com ela&#8221;<\/em> ao mesmo tempo me deram ler o livro<em> &#8220;Walking on Eggshells&#8221;<\/em> para poder lidar-me com ela e com a situa\u00e7ao. Nesse momento, eu me sentia, dentro de tudo, &#8220;calma&#8221;, pois acho que j\u00e1 estava vivendo em uma dissocia\u00e7\u00e3o constante com a quantidade de coisas que ia acontecendo.<\/p>\n\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o tinha permiss\u00e3o para informar as outras irm\u00e3s da comunidade sobre o diagn\u00f3stico dessa irm\u00e3, de modo que elas basicamente tinham de sofrer com a raiva, as explos\u00f5es e o desconforto que essa irm\u00e3 causava, sem entender por que ningu\u00e9m fazia nada a respeito.<\/p>\n\n<p>&#8211; Diariamente, eu tinha longas sess\u00f5es de di\u00e1logo e escuta com essa irm\u00e3 &#8211; \u00e0s vezes at\u00e9 duas horas seguidas &#8211; enquanto ela chorava, trancada em seu mundo emocional de autoavers\u00e3o, absorvendo-me, consumindo a minha energia e o tempo que eu tinha para dedicar tamb\u00e9m \u00e0s outras irm\u00e3s da comunidade.<\/p>\n\n<p>&#8211; Esa irma ia a um psiquiatra e tomava v\u00e1rios medicamentos psic\u00f3ticos, na \u00e9poca tamb\u00e9m foi lhe sugerido uma terapia comportamental dial\u00e9tica residencial devido \u00e0 gravidade. Ped\u00ed ao seu psiquiatra uma carta por escrito para present\u00e1-la \u00e0s superioras como uma prova da sua gravidade. Esse tratamento foi recusado pelas superioras por motivos financeiros, mas por outro lado se recusavam conversar com a airma e envi\u00e1-la a sua casa, portanto continuou na comunidade, tomando seus medicamentos e fazendo terapia de conversa\u00e7\u00e3o uma vez por semana, o que n\u00e3o ajudou em nada. Isso durou dois anos sem nenhum controle, enquanto eu gradualmente &#8220;perdia a cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n\n<p>&#8211; Essa irm\u00e3 regularmente tinha explos\u00f5es por causa de seu transtorno, tanto comigo quanto com o restante da comunidade por pequenas coisas, como o fato de uma irm\u00e3 dobrar as toalhas do seu jeito.<\/p>\n\n<p>&#8211; Dezenas de vezes que se trancava no banheiro por horas, batia a cabe\u00e7a contra a parede repetidamente para se machucar; todo tipo de loucura.<\/p>\n\n<p>&#8211; Al\u00e9m do livro, n\u00e3o recebi nenhuma prepara\u00e7\u00e3o ou apoio para ajud\u00e1-la. somente me diziam: <em>&#8220;N\u00e3o leve nada do que ela diz ou faz para o lado pessoal, \u00e9 a doen\u00e7a dela&#8221;<\/em>.<\/p>\n\n<p>&#8211; Ademais de ter um comportamiento hipocondr\u00edaco furioso. Desde que chegou na comunidade com alergias alimentares, teve sua ves\u00edcula biliar removida quando eu era a espons\u00e1vel pela comunidade, fomos a dezenas de especialistas em Nova York ao longo de seus dois anos comigo no Harlem.<\/p>\n\n<p>&#8211; Sem mencionar que me ligava constantemente, enquanto eu estava trabalhando no escrit\u00f3rio de catequese da par\u00f3quia (substituindo outra irm\u00e3 que teve que ausentar-se por um ano e que tampouco recebeu nenhum tipo de apoio -mas disso falaremos depois-), reclamando de dores, tirando-me do trabalho ou o que parecia mais prov\u00e1vel, simplesmente tentando chamar minha aten\u00e7\u00e3o, como geralmente acontece com as pessoas que t\u00eam esse tipo de transtorno com a pessoa que as acompanha.<\/p>\n\n<p>&#8211; Muitas coisas aconteceram naquele primeiro ano, mas lembro que outra irm\u00e3 da minha comunidade precisou voltar \u00e0 Argentina para ajudar a m\u00e3e por um per\u00edodo indefinido. Essa irm\u00e3 era respons\u00e1vel pelo catecismo na par\u00f3quia, o apostolado era muito grande e o trabalho era em tempo integral, pois havia mais de 400 crian\u00e7as e mais de 50 catequistas em um programa bil\u00edngue (espanhol aos s\u00e1bados e ingl\u00eas aos domingos). E adivinha quem deveria ocupar seu cargo, enquanto ela estava em licen\u00e7a por tempo indeterminado? Exatamente, eu! <\/p>\n\n<p>Pedi apoio \u00e0s minhas superioras porque sentia que literalmente me enlouquecia. Minhas superioras sabiam como era dif\u00edcil ter uma irm\u00e3 com transtorno de personalidade lim\u00edtrofe na comunidade, ent\u00e3o como poderiam pensar que eu poderia assumir mais uma responsabilidade e substituir a irm\u00e3 que tinha se ausentado, assumindo tamb\u00e9m a fun\u00e7\u00e3o de diretora de catequese em tempo integral? <\/p>\n\n<p>Afinal me enviaram uma e foi uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o para mim, mas n\u00e3o o suficiente, porque, para minha surpresa, ela tamb\u00e9m estava doente e frequentemente precisava se ausentar, at\u00e9 que finalmente desistiu da vida religiosa (hoje est\u00e1 melhor, curada e prosperando em sua vida). Conclus\u00e3o: Tive de assumir esse cargo em tempo integral durante todo o ano catequ\u00e9tico, juntamente com a administra\u00e7\u00e3o da irm\u00e3 doente e do restante das irm\u00e3s da comunidade, sem mencionar que tamb\u00e9m era respons\u00e1vel a n\u00edvel de prov\u00edncia, pela parte lit\u00fargica, planejando toda a liturgia cantada para festas, missas e eventos, nos quais reun\u00edamos centenas de pessoas.<\/p>\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"300\" height=\"225\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/verbo-encarnado-ssvm-abusos.info\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/organ-harlem-300x225-2.jpg?resize=300%2C225&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-1429\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ensaio do coral, 2010<\/figcaption><\/figure>\n\n<p>Al\u00e9m disso, ser superiora de uma comunidade j\u00e1 implica suas pr\u00f3prias responsabilidades, que incluem todas as irm\u00e3s, reuni\u00f5es de superioras, fun\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a etc., essa era basicamente a parte mais f\u00e1cil, mas isso n\u00e3o significava que eu n\u00e3o fazia nada; o apostolado era muito grande e eu tinha que preparar e organizar constantemente aulas na par\u00f3quia, retiros para jovens, crian\u00e7as etc. Sempre havia muito o que fazer.<\/p>\n\n<p><strong>Mas, por que ningu\u00e9m me escutava? <\/strong><\/p>\n\n<p>E ainda n\u00e3o terminei!<\/p>\n\n<p>&#8211; Minhas superiorea pareciam ignorar tudo o que eu dizia. Deram-me a noticia que eu tinha que viajar para a Argentina para acompanhar essa irm\u00e3 doente para que se consultasse com um m\u00e9dico de l\u00e1. Ficar\u00edamos na casa de sua tia em Buenos Aires por alguns dias, para que o m\u00e9dico pudesse fazer alguns exames nela, enquanto ela tomava seus rem\u00e9dios, n\u00e3o me lembro bem quais eram esses rem\u00e9dios, mas n\u00e3o estavam relacionados ao dist\u00farbio que ela tinha, mas sim \u00e0 sua sa\u00fade f\u00edsica. Ent\u00e3o viajamos para l\u00e1 e fizemos tudo o que era necess\u00e1rio, n\u00e3o foi f\u00e1cil e tivemos muitas brigas durante a viagem.<\/p>\n\n<p>N\u00e3o me lembro bem, mas, no \u00faltimo momento, ela queria que eu viajasse com ela para visitar sua fam\u00edlia em outra regi\u00e3o da Argentina (uma fam\u00edlia negligente e disfuncional?). Essa \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio entre uma pessoa com esse transtorno e as pessoas que as cuidam. Um dia elas te odeiam e no outro dia est\u00e3o super apegadas (n\u00e3o \u00e9 a toa que essas pessoas tenham medo de relacionar-se).<\/p>\n\n<p>Naquele momento pensei: &#8220;De jeito nenhu<em>m,n\u00e3o vou.<\/em> Eles s\u00e3o literalmente a raz\u00e3o pela qual voc\u00ea \u00e9 como \u00e9!&#8221;. N\u00e3o lhe disse, mas era a verdade.<\/p>\n\n<p>Implorei \u00e0 minha superiora que me deixasse voltar sozinha \u00e0 Nova York, o que me foi concedido. Voei de Buenos Aires para Nova York e, assim que cheguei, implorei ao meu diretor espiritual (um sacerdote do IVE) que fizesse algo por mim com urg\u00eancia, ou a irm\u00e3 deixava a comunidade ou elas me tirassem de l\u00e1. Eu n\u00e3o aguentava mais! <\/p>\n\n<p>Finalmente, gra\u00e7as \u00e0s suas s\u00faplicas (e, o que \u00e9 mais impressionante, que foi preciso que um homem interviesse para que algo para fosse feito), ela foi enviada para a casa Provincial (a 4 quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia).<\/p>\n\n<p>&#8211; Alguns meses depois, pedi um tempo de desca\u00e7o e fui enviada para Avondale, na Pensilv\u00e2nia, como diretora de catequese da par\u00f3quia. Isso estava longe de ser um descan\u00e7o? Avondale era outra par\u00f3quia enorme e a diretora de catequese era uma responsabilidade igualmente grande em tempo integral. Portanto, eu n\u00e3o s\u00f3 estaria nessa fun\u00e7\u00e3o, mas, ao contr\u00e1rio que em Harlem, teria de aprender novas maneiras de fazer as coisas, conhecer todos os novos professores, fam\u00edlias, etc. Cada par\u00f3quia \u00e9 um mundo diferente com suas pr\u00f3prias regras. Sim, \u00f3timo, muito obrigada por tudo!<\/p>\n\n<p>Deixei a vida religiosa apenas dois meses ap\u00f3s minha mudan\u00e7a para Avondale e tudo come\u00e7ou a desmoronar em mim apenas um m\u00eas depois de eu estar l\u00e1. Comecei a chorar todos os dias, n\u00e3o conseguia comer, n\u00e3o conseguia sorrir, n\u00e3o tinha energia nem \u00e2nimo e me sentia profundamente triste. Havia chegado ao outro extremo da exaust\u00e3o, sentia-me em completo luto, uma parte de mim parecia ter morrido contida nesse tipo de vida religiosa. Ironicamente, me chamava &#8220;Lumen&#8221; (luz), mas sentia que minha luz interior havia se apagado.<\/p>\n\n<p>A \u00fanica paz e esperan\u00e7a que eu sentia era imaginar um dia deixar aquela vida -apesar de todos os medos de voltar ao mundo aos 30 anos, com a cabe\u00e7a raspada e um intervalo de 8 anos no meu curr\u00edculo- tinha a esperan\u00e7a que algo poderia acontecer na minha vida que seria melhor que aquilo que eu estava vivendo.<\/p>\n\n<p>E esses foram meus 12 anos l\u00e1. N\u00e3o foi f\u00e1cil e ainda n\u00e3o est\u00e1 sendo f\u00e1cil trilhar meu caminho nesta sociedade capitalista, mas tenho bons aliados vis\u00edveis e invis\u00edveis que me ajudam a trilh\u00e1-lo.<\/p>\n\n<p>&#8211; Meu diretor espiritual me deu permiss\u00e3o para pedir um indulto de sa\u00edda, ent\u00e3o pedi \u00e0 minha superiora deixar a vida religiosa e ela imediatamente achou que eu estava tendo um colapso nervoso -em retrospecto se podia dizer que sim-. Ela queria me mandar a descan\u00e7ar no mosteiro por algumas semanas ou ir para a Calif\u00f3rnia. Tentei explicar a ela que essa situa\u00e7\u00e3o vinha se arrastando h\u00e1 muito tempo -n\u00e3o se dava conta disso? Uma pausa de duas semanas no mosteiro n\u00e3o resolveria o problema. Finalmente, meu pedido foi encaminhado \u00e0 Superiora Provincial e tive de manter o contato com ela para ter certeza de que meu pedido seria ouvido e para saber a data de quando poderia voltar para casa. Passou-se um m\u00eas at\u00e9 que finalmente me deram uma data para partir, 19 de setembro.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-abandono-y-maltrato\">Neglig\u00eancias e abusos<\/h2>\n\n<p>Faz tres anos que venho trabalhando &#8220;entre bastidores&#8221; numa pr\u00e1tica excepcional de terapia comportamental dial\u00e9tica com um conhecimento pr\u00f3ximo e pessoal, tanto da modalidade quanto nos tipos de clientes t\u00edpicos que melhor se encaixam nos crit\u00e9rios dessa terapia. E posso dizer com seguran\u00e7a que o fato das superioras terem se recusado a permitir o tratamento dessa irm\u00e3 com transtorno de personalidade lim\u00edtrofe (de forma residencial) foi negligente, pois ela estava causando danos a si mesma e \u00e0s pessoas ao seu redor.<\/p>\n\n<p>Essa Ordem religiosa se orgulha em dizer que &#8220;cuida dos seus&#8221;, uma estupidez escrita em suas Constitui\u00e7\u00f5es, porque nesse caso e em tantos outros, vemos a neglig\u00eancia e o cuidado insuficiente que tiveram. Na minha \u00e9poca, elas raramente mandavam uma irm\u00e3 doente de volta para casa, mas tenho certeza de que essa irm\u00e3 em particular teria recusado veementemente essa proposta, mas algo tinha de ser feito, pois a realidade era que ela era uma mulher jovem, diagnosticada com transtorno de personalidade lim\u00edtrofe, recomendada por escrito para realizar uma terapia comportamental dial\u00e9tica residencial por seu psiquiatra, e a Ordem \u00e0 qual ela pertencia se recusava a fornecer-lhe o tratamento que a ajudaria a que tivesse uma sa\u00fade mental est\u00e1vel. As consequ\u00eancias eram:<\/p>\n\n<p>&#8211; um sofrimento di\u00e1rio de altos e baixos emocionais incontrol\u00e1veis,<\/p>\n\n<p>&#8211; que todas as irm\u00e3s com quem ela convivia sofriam regularmente com suas explos\u00f5es de raiva, sua volatilidade emocional e sua manipula\u00e7\u00e3o, sem que a maioria delas soubessem o motivo,<\/p>\n\n<p>&#8211; que as superioras, como eu, tinhamos que assumir a responsabilidade em cuidar a uma pessoa que sofria de uma doen\u00e7a mental e emocional cr\u00f4nica, sem ter nenhum treinamento espec\u00edfico ou apoio profissional nesse tipo de fun\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, tendo que cuidar do restante da comunidade, das responsabilidades do apostolado e da prov\u00edncia.<\/p>\n\n<p>PARA N\u00c3O MENCIONAR que ningu\u00e9m se importava comigo, simplesmente me enviaram uma irm\u00e3 doente e um livro, como uma especie de manual de prepara\u00e7\u00e3o para aprender a conviver com ela. Como sua superiora n\u00e3o consegui que lhe fosse designado um terapeuta quando ela realmente precisava de um; n\u00e3o consegui uma irm\u00e3 extra para ajudar-me no apostolado, ou seja, n\u00e3o recebi nenhum apoio regular para lidar com tudo isso sozinha.<\/p>\n\n<p>Tudo o que eu podia fazer era telefonar para a superiora da prov\u00edncia quando a situa\u00e7\u00e3o sa\u00eda fora do controle, mas nada era feito para cuidar da minha sa\u00fade mental e emocional.<\/p>\n\n<p><strong>E desde aqui envio sauda\u00e7\u00f5es aos meus pais<\/strong><\/p>\n\n<p>Gra\u00e7as a Deus, cresci em um lar est\u00e1vel com v\u00ednculos seguros, gra\u00e7as a Deus, tive uma educa\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e com os p\u00e9s no ch\u00e3o, com discernimento s\u00e1bio, habilidades intuitivas profundas, com a capacidade de aprender rapidamente e gerenciar meu mundo emocional bem o suficiente para n\u00e3o sair correndo de l\u00e1 quando tudo aquilo se transformou num inferno. E agora entendo porque me sobrecarregaram com muitas coisas, aquelas que foram religiosas tamb\u00e9m entender\u00e3o: &#8220;APOIEM SEMPRE A SUAS SUPERIORAS&#8221;!<\/p>\n\n<p><strong>Mas o que as SSVM est\u00e3o fazendo?<\/strong><\/p>\n\n<p>\u00c9 como ter a 5 titulares de um time de basquete, que jogam mais minutos e apoiam mais o time, mas nenhum deles participam dos benef\u00edcios, como ir ao quiropr\u00e1tico, \u00e0 sauna, comer alimentos bons e nutritivos, etc. Como explicar tudo isso sem falar de neglig\u00eancias e abusos?<\/p>\n\n<p>E nem me fale sobre como nos ensinam a ser &#8220;generosos com Deus&#8221;, pois, dessa forma, &#8220;Deus nos dar\u00e1 a gra\u00e7a para tudo o que se nos designa&#8221;. Isso nada mais \u00e9 do que <em>uma lavagem cerebral<\/em> para fazer com que voc\u00ea se cale e seja uma freira boa e calada; para fazer com que voc\u00ea se sinta culpada e se confesse de qualquer pensamento contr\u00e1rio, quando s\u00e3o literalmente eles que est\u00e3o <em>sugando<\/em> a vida que Deus lhe deu. <strong>Bastante distorcido, n\u00e3o \u00e9? Bem-vindas ao convento!<\/strong><\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p>(Estou escrevendo sobre isso).<\/p>\n\n<p><\/p>\n\n<p>Ser\u00e1 que todos n\u00f3s nos comprometemos com uma vida de servi\u00e7o, obedi\u00eancia e <em>&#8220;morte para si mesmo como Cristo na cruz&#8221;?<\/em> De fato, sim! Mas ser\u00e1 que sab\u00edamos que isso seria t\u00e3o disfuncional e prejudicial \u00e0 nossa pr\u00f3pria sa\u00fade mental, emocional e f\u00edsica? N\u00e3o! Dever\u00edamos, ent\u00e3o, ter lido as &#8220;letras pequenas&#8221;.<\/p>\n\n<p>Na minha opini\u00e3o, ao aplicar a frase: &#8220;O que Jesus faria?&#8221;, -que para mim \u00e9 uma pergunta b\u00e1sica do cristianismo-, \u00e0s SSVM fez o oposto. Deveriam ter se preocupado, permitido e garantido um local para o tratamento dessa irm\u00e3, desta forma, lhe ajudaria a ela mesma, \u00e0s irm\u00e3s que tinham que conviver com ela e \u00e0 superiora que estaria responsavel pelo seu cuidado. Isso n\u00e3o pode ser negado por falta de recursos financeiros, porque AS SSVM SIM POSSUEM MEIOS ECON\u00d4MICOS.<\/p>\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" id=\"h-resumen\">Resumo<\/h2>\n\n<p>Tamb\u00e9m escrevo coisas positivas sobre meu passo pela vida religiosa, j\u00e1 disse isso uma vez e n\u00e3o mudaria a decis\u00e3o que tomei de entrar para as Servidoras. \u00c9 um caminho de vida incomum que sou grata por ter percorrido, mas devo dizer que foi profundamente prejudicial para muitas de n\u00f3s. <\/p>\n\n<p>Minha hist\u00f3ria \u00e9 uma das mais &#8220;leves&#8221;, n\u00e3o sofri insultos, n\u00e3o sofri maus-tratos, n\u00e3o fui mandada para casa sozinha e sem dinheiro como outras foram. Fui levada de volta \u00e0 casa por duas irm\u00e3s, provavelmente porque eu havia sido superiora por quatro anos e senti que as irm\u00e3s me valorizavam, ou talvez porque eu era apenas uma garota norte-americana branca, quem sabe! Mas h\u00e1 outras hist\u00f3rias tristes e lament\u00e1veis que causaram mais danos. Minha historia se enquadra na categoria de traumas cr\u00f4nicos e duradouros, talvez haja menos historias como a minha, mas tamb\u00e9m existimos! <\/p>\n\n<p>No in\u00edcio deste ano, recebi a not\u00edcia de que uma irm\u00e3 com quem eu morei havia decidido ir embora. Foi religiosa h\u00e1 cerca de 20 anos e isso me preocupa, rezo por ela! Entramos em contato com ela, mas no momento n\u00e3o queria nenhum apoio. Muitas passaram menos tempo do que n\u00f3s, mas com hist\u00f3rias igualmente intensas e ambas s\u00e3o v\u00e1lidas e prejudiciais. <\/p>\n\n<p>Cada uma de n\u00f3s busca curar-se e, \u00e0s vezes, o processo \u00e9 longo, mas eu diria que a dificuldade \u00e9 que nossas hist\u00f3rias s\u00e3o dif\u00edceis de se tornarem vis\u00edveis porque tudo acontece em um ambiente com muito sigilo e ningu\u00e9m REALMENTE sabe o qu\u00e3o exigente \u00e9 a vida que levamos e a <em>lavagem cerebral<\/em> que existe, a menos que tenham passado por isso <\/p>\n\n<p>Repetirei sempre que se trata de uma seita, mas como tudo est\u00e1 sob uma fachada que grande parte do mundo honra &#8211; freiras fazendo obras de caridade, ajudando os mais pobres dos pobres, esposas de Cristo &#8211; \u00e9 dif\u00edcil separar o virtuoso do prejudicial, mas os dois podem coexistir.<\/p>\n\n<p>No entanto, aqui estamos n\u00f3s. Tentando carregar nossas hist\u00f3rias, nossos segredos e feridas da melhor maneira poss\u00edvel; tentando transform\u00e1-los em magia e servi\u00e7o neste mundo, muitas vezes com as nossas almas um pouco cansadas e marcadas pelo o que passamos; tentando seguir em frente sem ser &#8220;queimadas&#8221;, mais uma vez, sem deixar que se aproveitem de n\u00f3s, sendo um pouco mais s\u00e1bias e mais hesitante no momento de entregar-nos a algo. <\/p>\n\n<p>E \u00e9 por isso que n\u00e3o quero mais trabalhar em tempo integral. <strong>Ser freira era um trabalho 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem limites.<\/strong> \u00c9 uma <strong>merda selvagem<\/strong>!<\/p>\n\n<p>Depois da minha sa\u00edda, sofr\u00ed outros esgotamento no mundo do trabalho em tempo integral e, embora isso n\u00e3o seja objetivamente um problema para todos, simplesmente n\u00e3o \u00e9 mais para mim.<\/p>\n\n<p>Agora quero aproveitar o tempo, deitar na grama, observar a brisa que passa pelas \u00e1rvores, brincar com meus gatos pelo resto dos meus dias, al\u00e9m de dan\u00e7ar, \u00e9 claro.<\/p>\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicamos aqui uma tradu\u00e7\u00e3o do artigo publicado por Kelly Sue Fitz (ex-Madre Lumen) em seu blog, originalmente em ingl\u00eas. 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